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Arroz em Foco

31/07/2004
Arroz aromático entra no mercado com desafio de atrair o consumidor

Terceiro cereal mais plantado no mundo, atrás apenas do trigo e do milho, o arroz vem ganhando destaque na imprensa brasileira nos últimos meses. O produto chamou a atenção no último levantamento realizado pela Conab, com uma produção de 12,7 milhões de toneladas, área plantada de 3,5 milhões de hectares e produtividade média de 3.542 quilogramas por hectare. O Brasil tem um consumo per capita de 45 kg/habitante/ano do produto beneficiado, sendo considerado um dos maiores consumidores mundiais, já que na Europa esse número está em torno de 20 kg/habitante/ano. Atentos à importância do cereal para a alimentação mundial e ao seu grande potencial de mercado, pesquisadores da Embrapa e do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) finalizaram pesquisas e lançaram para o plantio comercial cultivares do arroz aromático, ainda pouco difundido no Brasil, mas bastante conhecido no Oriente – é essencial para a cozinha hindu – e na Europa. Estima-se que o comércio mundial de arroz aromático já atinja 10% do volume total de arroz negociado internacionalmente.

Dentre as variedades de arroz naturalmente aromatizado, o Basmati, cultivado sobretudo na Índia e no Paquistão, é o mais comum e apreciado, seguido pelo Jasmine (ou Hom Mali), da Tailândia. O aroma natural e o sabor delicado desses produtos fazem com que tenham boa aceitação em diversos locais do planeta.

O arroz aromático possui qualidades semelhantes aos tipos convencionais do cereal e não apresenta dificuldades de manejo durante o processo produtivo e de beneficiamento. Com isso, pode ser tranqüilamente incorporado às atividades tanto do produtor quanto da agroindústria. Antes de entrar em definitivo neste nicho, contudo, alguns aspectos como qualidade do grão, capacidade produtiva e tolerância a pragas e doenças devem ser cuidadosamente analisados.

No Brasil, a procura por esse tipo de arroz ainda é pequena porque a oferta ocorre apenas com produtos importados em mercados mais sofisticados.

Atenta a isso, a Embrapa Arroz e Feijão, após 12 anos de pesquisas e um investimento de R$ 1,8 milhão, lançou em maio de 2004 um arroz aromático no qual é possível sentir sabores como pipoca ou ervas finas, valorizando o produto nacional. O BRS Aroma, nome designado pela Embrapa ao novo produto, apresenta produtividade média de 3,2 mil kg/ha, número semelhante ao das variedades convencionais de terras altas, e um notável potencial de agregação de valor, uma vez que pode chegar a custar três vezes mais que o grão tradicional no mercado.

Segundo a Embrapa, as sementes desenvolvidas são mais indicadas para as terras altas de Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Piauí, onde apresenta produtividade igual à BRS Primavera. É própria também para Rondônia e Mato Grosso, mas tem rendimento ligeiramente inferior à Primavera. De acordo com estudos da instituição, a BRS Aroma é mais resistente ao acamamento e à brusone, mas ligeiramente menos resistente à mancha-parda e à mancha-dos-grãos que a BRS Primavera.

A Embrapa Arroz e Feijão divulgou em novembro de 2003 uma pesquisa realizada junto a pessoas de várias idades, níveis de escolaridade e renda para avaliar a reação do consumidor ao produto. Ao oferecer duas amostras de arroz, uma aromática e a outra convencional, constatou-se que 73% dos entrevistados perceberam um aroma diferente no arroz aromático, mas 44% desses não estabeleceram semelhança alguma com cheiros já conhecidos. 58% relataram uma aparência diferente no arroz aromático, mas o aspecto (cor, tamanho do grão, pegajosidade, umidade) não foi especificado na pesquisa. Pesquisadores concluíram que a variedade foi bem aceita pelos consumidores, mas aconselham introduzir no mercado embalagens menores, com no máximo 1kg, e com sugestões para consumo e elaboração de pratos especiais.

O IAC iniciou em 1992 pesquisas focadas no melhoramento genético de linhagens trazidas dos Estados Unidos e adaptadas ao estado de São Paulo. Em março de 2001, lançou a variedade aromática IAC-500, também com aroma de pipoca. Para Cândido Ricardo Bastos, pesquisador do Centro de Plantas Graníferas do IAC, “o que difere o arroz aromático das variedades convencionais são o aroma e o sabor, além do preço que o produto chega a alcançar no mercado, que pode ser cinco vezes maior”.

Conforme informações do IAC, que realizou os estudos em parceria com a A&M University do Texas (EUA) e o Departamento de Agricultura norte-americano (USDA), o plantio, colheita, processamento e aparência são praticamente idênticos às outras variedades. A IAC-500 apresenta ciclo biológico precoce, elevada resistência ao acamamento e bom potencial produtivo. Pode ser utilizada em sistema de arroz inundado ou de terras altas com irrigação suplementar por aspersão.

Em relação às cultivares tradicionais, como a IAC-103, a produtividade da IAC-500 chega a ser 15% menor, mas o alto rendimento de grãos inteiros e o maior preço obtido no mercado justificam sua recomendação para plantio no Estado de São Paulo.

Mas Cândido deixa um alerta para os produtores que desejam cultivar o arroz aromático: “aqueles que trabalham com tipos especiais e desejam que seu produto encontre lugar nos mercados interno e externo devem colocar em prática o padrão de qualidade internacional durante o cultivo, pois maiores tecnologias serão disponibilizadas para que a indústria possa investir nessa área”.

Com uma maior divulgação do arroz aromático, o produto possivelmente geraria curiosidade nos consumidores, que levariam o produto para suas mesas. A continuidade na compra e no consumo, contudo, só será observada se o alimento apresentar qualidade. Os fatores preço e hábito cultural certamente influenciarão no momento da escolha também.

Paula Torres Pereira
ptpereir@naturalss.com.br

 

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